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Um em cada quatro planos de transferência especial de 2025 foi barrado. Dois terços deles, porque o próprio governo não concluiu a análise no prazo.

Sobre esta análise. Os números vêm de extrações feitas em 31 de julho de 2026 da API de dados abertos do TransfereGov, com o pacote transferegovr. O código está reproduzido ao longo do texto. Os dados são atualizados diariamente; refazer a extração em outra data produzirá números diferentes.

Transferência especial é o que a imprensa apelidou de “emenda Pix”: dinheiro que a Emenda Constitucional 105/2019 permitiu repassar direto da União para estados e municípios, sem convênio e sem prestação de contas ao ministério repassador. O ente recebe e decide.

O que quase nunca se diz sobre esse desenho é que ele deixou um rastro administrativo minucioso. Cada etapa — o plano, o empenho, o documento hábil, a ordem bancária — vira uma linha numa tabela pública. Dá para acompanhar cada real do anúncio ao crédito em conta. Este texto faz isso para Pernambuco.

A trilha

library(transferegovr)
library(dplyr)

planos <- tg_get(
  "transferenciasespeciais", "plano_acao_especial",
  uf_beneficiario_plano_acao = "PE",
  .limit = Inf
)

planos <- planos |>
  mutate(
    valor = coalesce(valor_custeio_plano_acao, 0) +
      coalesce(valor_investimento_plano_acao, 0)
  )

nrow(planos)
#> [1] 1962
sum(planos$valor) / 1e6
#> [1] 1709.6

1.962 planos de ação, R$ 1,71 bilhão, entre 2020 e julho de 2026. Vão para 184 beneficiários — 183 municípios e o Estado de Pernambuco — indicados por 42 parlamentares. Do total, 88% é investimento e 12% custeio.

A trilha do dinheiro nas transferências especiais em Pernambuco, em cinco etapas: emenda parlamentar de 42 parlamentares; plano de ação, 1.962 planos e R$ 1,71 bilhão na tabela plano_acao_especial; empenho, 2.111 empenhos e R$ 1,71 bilhão em empenho_especial; documento hábil, 2.030 documentos e R$ 1,56 bilhão em documento_habil_especial; ordem de pagamento e ordem bancária, 1.932 ordens todas emitidas; e a conta do beneficiário. Entre empenho e documento hábil, um desvio marca 204 planos impedidos, 207 empenhos e R$ 151,8 milhões que não seguem adiante.
A trilha do dinheiro nas transferências especiais em Pernambuco, em cinco etapas: emenda parlamentar de 42 parlamentares; plano de ação, 1.962 planos e R$ 1,71 bilhão na tabela plano_acao_especial; empenho, 2.111 empenhos e R$ 1,71 bilhão em empenho_especial; documento hábil, 2.030 documentos e R$ 1,56 bilhão em documento_habil_especial; ordem de pagamento e ordem bancária, 1.932 ordens todas emitidas; e a conta do beneficiário. Entre empenho e documento hábil, um desvio marca 204 planos impedidos, 207 empenhos e R$ 151,8 milhões que não seguem adiante.

O encaixe é exato, e vale reparar nele: R$ 1.709,6 milhões empenhados menos R$ 1.557,9 milhões em documentos hábeis dão R$ 151,8 milhões — precisamente o valor dos planos impedidos. O dinheiro não evapora entre etapas. Ele para num ponto identificável, e o sistema registra qual.

Isso é mais raro do que parece em dado público brasileiro, e merece ser dito antes das críticas.

O ritmo

Gráfico de barras empilhadas das transferências especiais para Pernambuco por ano do plano de ação: 16 planos e R$ 14,7 milhões em 2020, 134 e R$ 94,8 mi em 2021, 239 e R$ 147,2 mi em 2022, 306 e R$ 333,8 mi em 2023, 350 e R$ 352,5 mi em 2024, 559 e R$ 423,0 mi em 2025, e 358 e R$ 343,5 mi até julho de 2026. A parcela impedida, em vermelho, é quase invisível até 2024 e salta em 2025.
Gráfico de barras empilhadas das transferências especiais para Pernambuco por ano do plano de ação: 16 planos e R$ 14,7 milhões em 2020, 134 e R$ 94,8 mi em 2021, 239 e R$ 147,2 mi em 2022, 306 e R$ 333,8 mi em 2023, 350 e R$ 352,5 mi em 2024, 559 e R$ 423,0 mi em 2025, e 358 e R$ 343,5 mi até julho de 2026. A parcela impedida, em vermelho, é quase invisível até 2024 e salta em 2025.

De R$ 14,7 milhões em 2020 para R$ 423 milhões em 2025 — vinte e nove vezes em cinco anos. E 2026, com o ano pela metade, já passou de R$ 343 milhões. A modalidade deixou de ser marginal.

A faixa vermelha é o assunto do próximo trecho.

Onde trava

planos |>
  count(situacao_plano_acao, wt = valor / 1e6, name = "milhoes")
#> # A tibble: 3 × 2
#>   situacao_plano_acao              milhoes
#>   <chr>                              <dbl>
#> 1 CIENTE                            1557.9
#> 2 IMPEDIDO                           128.7
#> 3 IMPEDIDO_REJEICAO_PLANO_TRABALHO    23.1

204 planos estão impedidos, somando R$ 151,8 milhões. Todos foram empenhados — o dinheiro chegou a ser reservado no orçamento — e nenhum gerou documento hábil. Ficam num limbo: comprometidos e parados.

E não estão espalhados no tempo:

Ano Planos Impedidos % R$ mi travados
2020 16 0 0,0% 0,0
2021 134 4 3,0% 2,6
2022 239 9 3,8% 5,8
2023 306 8 2,6% 12,4
2024 350 0 0,0% 0,0
2025 559 141 25,2% 96,4
2026 358 42 11,7% 34,6

Em 2025, um em cada quatro planos foi impedido. Nos quatro anos anteriores o índice nunca passou de 3,8%, e 2024 fechou com zero.

O motivo declarado é o que dá o tom:

planos |>
  filter(!is.na(motivo_impedimento_plano_acao)) |>
  count(motivo_impedimento_plano_acao, sort = TRUE)
#> 1 "Impedido por falta de análise conclusiva no prazo estabelecido."      91
#> 2 "Conforme Lei Complementar n° 210/2024, Artigo 10, Inciso X; …"        29
#> 3 "Impedido por Rejeição do Plano de Trabalho"                           21
#> 4 "Impedimento por falta de complementação/ajuste do plano de trabalho…" 11
#> 5 "Impedido por Restrição Técnica - inobservância da aplicação mínima…"   6

Noventa e três dos 141 impedimentos de 2025 — dois terços — são “falta de análise conclusiva no prazo estabelecido”. Não é o município que errou o formulário, não é restrição técnica, não é rejeição de mérito. É o prazo de análise vencendo sem que a análise saísse.

Vale a cautela: os planos de 2025 e 2026 são os mais recentes, e é natural que concentrem pendências que o tempo resolveria. Mas “falta de análise conclusiva no prazo” não é pendência aberta — é prazo esgotado, com efeito jurídico de impedimento. E a diferença entre 2024, com zero, e 2025, com 141, é grande demais para ser só maturação. A Lei Complementar 210/2024, citada em 29 dos casos, mudou as regras nesse intervalo e é a hipótese mais óbvia a investigar.

Do ponto de vista de quem gere um município de Pernambuco, o efeito é concreto: R$ 96,4 milhões que constavam como recurso disponível em 2025 não viraram documento hábil, e a razão registrada não é nada que a prefeitura pudesse ter feito diferente.

Quem recebe, quem indica

planos |>
  group_by(nome_beneficiario_plano_acao) |>
  summarise(planos = n(), milhoes = round(sum(valor) / 1e6, 1)) |>
  arrange(desc(milhoes))
#> # A tibble: 184 × 3
#>   nome_beneficiario_plano_acao planos milhoes
#>   <chr>                         <int>   <dbl>
#> 1 MUNICIPIO DE SAO CAITANO         28    57.5
#> 2 MUNICIPIO DO BOM JARDIM          46    52.5
#> 3 MUNICIPIO DE BREJINHO            36    44.7
#> 4 ESTADO DE PERNAMBUCO             26    38.0
#> 5 MUNICIPIO DE PAUDALHO            19    29.2
#> # ℹ 179 more rows

São Caitano é o maior destino da modalidade no estado, à frente do próprio Estado de Pernambuco. Não há nada de irregular nisso — a transferência especial é, por desenho, instrumento de emenda individual, e emendas individuais seguem a base de quem as propõe, não o mapa das carências. O dado apenas torna esse desenho visível.

A tabela guarda o autor de cada emenda, o que permite a leitura complementar:

planos |>
  group_by(nome_parlamentar_emenda_plano_acao) |>
  summarise(planos = n(), milhoes = round(sum(valor) / 1e6, 1)) |>
  arrange(desc(milhoes))
#> 1 André Ferreira       119  95.1
#> 2 Carlos Veras         118  80.7
#> 3 Felipe Carreras       53  80.7
#> 4 Humberto Costa       163  79.1
#> 5 Renildo Calheiros     65  76.0

Quarenta e dois parlamentares, nenhum plano sem autor informado. A dispersão é notável: o primeiro colocado responde por 5,6% do total. Não é um instrumento capturado por poucos.

A outra porta: fundo a fundo

Transferência especial não é a única via. O módulo fundoafundo cobre repasses de fundo federal para fundo estadual ou municipal — saúde, assistência social, educação:

ff <- tg_get("fundoafundo", "plano_acao", .limit = Inf)

ff |>
  filter(uf_ente_recebedor_plano_acao == "PE") |>
  summarise(planos = n(),
            milhoes = sum(valor_total_plano_acao, na.rm = TRUE) / 1e6)
#> # A tibble: 1 × 2
#>   planos milhoes
#>    <int>   <dbl>
#> 1    868   1792.

868 planos, R$ 1,79 bilhão — praticamente o mesmo volume das transferências especiais, por um caminho institucional inteiramente diferente, com fundo constituído, conselho e prestação de contas setorial. Um município recebe pelas duas portas ao mesmo tempo, e nenhum dos dois sistemas mostra a outra metade.

Aqui a qualidade do cadastro é exemplar. Testamos a coerência entre a UF declarada e o código IBGE do município, cujos dois primeiros dígitos são o código do estado:

uf_do_codigo <- c("26" = "PE", "25" = "PB", "27" = "AL", "29" = "BA")  # etc.

ff |>
  filter(!is.na(uf_ente_recebedor_plano_acao),
         !is.na(codigo_ibge_municipio_ente_recebedor_plano_acao)) |>
  mutate(
    codigo = sprintf("%07.0f", codigo_ibge_municipio_ente_recebedor_plano_acao),
    uf_ibge = uf_do_codigo[substr(codigo, 1, 2)],
    coerente = uf_ente_recebedor_plano_acao == uf_ibge
  ) |>
  count(coerente)
#> # A tibble: 1 × 2
#>   coerente     n
#>   <lgl>    <int>
#> 1 TRUE     25971

Zero contradições em 25.971 planos, em todo o país. Nenhum prefixo inválido, nenhum código IBGE com dois nomes de município diferentes.

O que o TransfereGov não diz

Há uma pergunta que nenhuma das tabelas acima responde: onde a obra está.

O TransfereGov registra qual ente recebe — informação administrativa, validada contra uma tabela fechada, quase impossível de contradizer. Não registra coordenada. Para isso é preciso o outro cadastro federal, o ObrasGov, que desde 2021 aceita latitude e longitude. Os dois não têm chave comum: o que os liga é o território.

E ali a história é outra. Dos 5.477 projetos com Pernambuco como UF principal, 98,9% têm ponto — adesão alta. Mas ao testar cada ponto contra a malha municipal do IBGE:

Mapa do Brasil com os pontos de obras declaradas em Pernambuco que caem fora do estado: 141 pontos em vermelho em outros estados, a maioria na divisa com a Paraíba, mais casos isolados no Amazonas e na Bahia, e 52 pontos em laranja no mar, um deles a 346 km da costa.
Mapa do Brasil com os pontos de obras declaradas em Pernambuco que caem fora do estado: 141 pontos em vermelho em outros estados, a maioria na divisa com a Paraíba, mais casos isolados no Amazonas e na Bahia, e 52 pontos em laranja no mar, um deles a 346 km da costa.

141 pontos caem em outro estado — 130 na Paraíba, o que a divisa densa explica, mas também dois no Amazonas: um projeto de estradas vicinais declarado em Pernambuco tem ponto em Manicoré, a 2.643 km. Outros 52 caem no mar, a maioria a menos de 2 km da costa, mas um a 346 km, em obra marcada como em execução.

A manchete tentadora seria “2,2% dos pontos estão errados” — a proporção que cai fora de todo município declarado. Ela não sobrevive à distância: 39 dos 54 projetos afetados estão a menos de um quilômetro da divisa, o que é resolução de polígono, não obra no lugar errado. O deslocamento real são 15 projetos, 0,3%.

Vale registrar o que também não é erro: sete pontos que um teste ingênuo acusaria caem em Fernando de Noronha, a 361 km do continente. O arquipélago é Pernambuco, e os pontos estão certos.

O contraste é instrutivo, mas a lição não é “um é melhor que o outro”. O TransfereGov não pode errar a localização porque não pede o dado que erra. O ObrasGov, ao aceitar coordenada, assumiu o risco de estar visivelmente errado — e é por isso que dá para escrever este parágrafo sobre ele. Cadastro que não pode ser contestado não é cadastro melhor; é cadastro que pede menos.

O que um gestor faz com isso

Três coisas, todas baratas:

  1. Acompanhar o prazo de análise, não só o de execução. Os R$ 96,4 milhões travados em 2025 não dependeram de nenhum município. Um alerta sobre planos com análise próxima do vencimento é uma consulta a plano_acao_especial filtrando por situacao_plano_acao.
  2. Ler as duas portas juntas. Nenhum sistema mostra quanto um município recebe no total. O código IBGE permite somar transferência especial e fundo a fundo, e essa soma é o número que um secretário de planejamento precisa.
  3. Validar coordenada contra município no cadastro. Do lado do ObrasGov, os 15 projetos genuinamente deslocados seriam barrados por um st_within — a mesma checagem que roda em segundos aqui.

Limites desta análise

  • Recorte. Transferências especiais com uf_beneficiario_plano_acao = "PE" e planos fundo a fundo com ente recebedor em PE. Recursos que chegam ao estado por outras vias — TED, convênios do SICONV, execução direta federal — ficam de fora.
  • “Impedido” é situação corrente, não sentença. Um plano impedido em julho de 2026 pode ser desimpedido depois. O que os dados sustentam é a fotografia da data de extração.
  • A causa do salto de 2025 não está provada. A concentração é factual; a Lei Complementar 210/2024 é hipótese, sugerida por aparecer entre os motivos.
  • Valor do plano não é valor pago. É custeio mais investimento declarados. O pagamento efetivo está na ordem bancária, e nem toda ordem bancária foi conciliada aqui.
  • A parte do ObrasGov é resumo de uma análise mais longa; a malha municipal usada é a de 2022.

Reprodução

pak::pak(c("StrategicProjects/transferegovr", "StrategicProjects/obrasgovr"))

Ambas as APIs são públicas e sem autenticação. A extração completa baixa cerca de 2 mil planos, 2 mil empenhos e 26 mil planos fundo a fundo — poucos minutos, com o limite de requisições que o pacote já respeita sozinho.

Uma ressalva prática: a trilha do empenho ao documento hábil usa id_empenho = in_(...) com milhares de valores, e uma lista muito longa estoura o tamanho da URL. Faça em lotes de algumas centenas.